
Martin Scorsese disse que o único motivo que tem para filmar documentários sobre música, é porque quer saber mais a respeito. “Filmar um show dos Rolling Stones é como usar drogas. Preciso disso”, disse numa entrevista à Rolling Stone americana.
Shine a Light, o novo trabalho do diretor norte-americano é o resultado final dessa dependência que, ao que tudo indica, não vai ficar por aqui, já que Scorsese prepara também um documentário sobre Bob Marley.
Batizado com o nome de uma música de um dos melhores álbuns dos Rolling Stones, Exile on Main Street, o documentário foi marcado por uma batalha de egos, de Mick Jagger e Martin Scorsese, que precisou quase implorar ao cantor para conseguir ao menos uma música da set list do show dos Stones, gravado no Beacon Theatre.
O documentário lembra, em alguns aspectos, o trabalho dos irmãos Maysles em Gimme Shelter. No filme de Albert e David Maysles, feito na gravação de um show dos Stones em Altamont em 1969, os diretores usaram a técnica do “fly in the wall”, em que a câmera está apenas presente sem interferir na ação, deixando os fatos se desenrolarem por si só.
Aliás, Albert Maysles, de 79 anos, também está envolvido na direção e produção de Shine a Light. Além do veterano cineasta, estão por trás das câmeras profissionais que participaram em obras primas como Magnolia, Eternal Sunshine of a Spotless Mind, entre outros.
A ideia inicial era de filmar o show da banda na praia de Copacabana em IMAX e 3D, mas Martin Scorsese preferia dar um tom mais intimista ao documentário. O diretor conta que achava que não havia mais nada a ser dito sobre os Stones, depois de 40 anos de estrada. Mera modéstia do diretor de Raging Bull, que já trabalhou com documentários sobre o Blues e sobre Bob Dylan(No Direction Home).
O olhar de Scorsese está lá o tempo todo. Os planos longos intercalados com cortes secos típicos do diretor norte-americano aliados a uma edição fantástica, a cargo de David Tedeschi, que também esteve em No Direction Home com Scorsese.
O documentário tem participações de Buddy Guy, Christina Aguilera, Jack White e até de Bill Clinton, que comemorava 60 anos no dia do show dos Stones. Basicamente, a obra é uma película única de uma banda que percorre os projetores por mais de 40 anos, sobrevivendo a modas e modismos, drogas e overdoses, boatos e paparazzi. Todos perguntam o segredo, Keith Richards brinca com o assunto, Jagger tenta dar uma resposta séria, acabam todos saindo pela tangente. Pra que realmente saber o segredo? Com certeza se eles o soubessem há 40 anos atrás, com certeza teriam desrespeitado e feito tudo diferente.
Vale a pena fazer o paralelo entre a banda do documentário dos Maysles e os Rolling Stones de Scorsese. Muita coisa mudou, fãs não morrem na plateia, a banda está madura, fecha os olhos para algumas coisas, se preocupa com outras. Mas vendendo a alma ao diabo ou não, os Stones com certeza já visitaram o outro lado.